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UnB coloca o trote em debate

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Tribuna do Brasil

Veteranos expõem calouros ao ridículo e chamam a atenção da diretoria

Walquíria Cassiano

 

Todo começo de semestre é a mesma coisa. Os calouros são submetidos a um ritual de passagem promovido pelos veteranos das universidades brasileiras. É o temido trote. Mas o que era para ser uma brincadeira com vistas à socialização dos novos alunos, muitas vezes os expõe a situações humilhantes. Os dois casos mais recentes, na Universidade de Brasília (UnB) que repercutiram pela polêmica que geraram, foram realizados por estudantes de Agronomia e do Instituto de Química. As atitudes dos alunos forçaram uma intervenção por parte de superiores. O Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão (CEPE) realizará debates para abordar o tema com representantes do todos os Centros Acadêmicos e docentes, na próxima quinta-feira (22), com representantes docentes e discentes.
Na última terça-feira (13), os veteranos de agronomia, após sujarem os novatos com ovos, café e tinta, os calouros foram levados ao curral do campus da UnB para participarem de uma gincana e, em seguida, pularem em uma piscina de lama, com pedaços de vegetais, legumes, folhas, galhos e lixo. Na semana anterior, os veteranos de Química explodiram algo no banheiro e uma garota ficou em estado de choque. De tanto chorar, ela teve de ser amparada por uma professora, que foi ovacionada. Outra brincadeira bastante polêmica, foi a dos alunos da Engenharia Civil, em que foram registrados casos de homofobia.
Na UnB, trote é tradição, mas alguns veteranos pegam pesado na hora de receber os novatos. Para o especialista em pedagogia escolar da Universidade, Aderson Costa, o trote é um protocolo normal. “É um ritual de passagem comum quando se entra de novos ambientes. Tem a função promocional. O casamento é um ritual de passagem que configura a mudança de status”, exemplifica. Costa avalia que o problema desse tipo de atitude, é que limites foram ultrapassados. “Os estudantes são submetidos a situações vergonhosas”, diz, acrescentando que os estudantes não se preocupam com o jeito que deixam o Campus. “Eles sujam, bagunçam, e deixam a sujeira toda lá. Todo semestre fica no chão e eles não tem a responsabilidade de limpar”.
O jovem Allan Parente faz Engenharia de Rede na UnB há um ano e diz que o trote da turma dele foi tranquilo. “A galera só brincou e fez a fila de elefantinho, tinta essas coisas. Teve o trote solidário também”, lembra. Rodrigo de Jesus, por sua vez, é calouro em Física e conta que não foi vítima da brincadeira. “Meu curso é um dos poucos que não faz trote. No primeiro dia, eles fazem um churrasco de boas vindas”, conta.
Nem o professor, tampouco os alunos sabem dizer se os calouros aceitam a condição por vontade própria ou por medo de represália. “Alguns devem aceitar por passividade, com medo de não serem aceitos”, sugere Costa. Parente e Jesus concordam que só participa quem quer. “Principalmente agora que está repercutindo, os veteranos respeitam muito quem não quer participar”, diz Jesus.
Para Costa, a Universidade deve tomar medidas mais drásticas. “Do jeito que está, parece que eles condizem com o que acontece”, reclama. O assessor da juventude da UnB, Rafael Morais, diz que a universidade não concorda com o que é feito. “É crime de injúria, já existe uma posição legal. No âmbito da universidade nós entendemos que é desumano e antagônico com o que nós queremos passar e que a humilhação não é aceitável”, explica, acrescentando que é preciso realizar discussões com alunos do ensino médio. “Eles já vem pensando no trote. É preciso mudar isso”.

 

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